Carta de um ansioso ao mundo

outubro 26, 2017



Olá para você que está lendo isso. Queria pedir de antemão que releve caso em algum momento eu pareça confuso ou incoerente, porque escrevi isso em meio a um turbilhão de emoções e sentimentos então é bem provável que eu pense mais rápido do que seja capaz de escrever. 

Estou enviando esta carta porque é importante. Não sei se será importante para você, mas para mim é NECESSÁRIO fazer isso. Passo tanto tempo me sentindo sufocado pelas minhas próprias sensações que poder colocar tudo para fora é um alívio sem tamanho. 

Eu sempre fui ansioso. Mas nem sempre foi no nível em que me encontro hoje. Era uma ansiedade normal, sabe? Sentia aquele friozinho na barriga, aquela euforia quando algo muito esperado por mim estava próximo de se realizar. Mas era só isso. Nada de crises de choro ou do desespero irracional que tomam conta de mim de vez em quando nos dias atuais. 

Eu demorei a aceitar e a entender que estava doente. Talvez porque tenha crescido ouvindo que ansiedade é frescura, que é coisa de gente rica ou de gente que não tem nada para fazer. Ninguém, nem eu mesmo, me levava a sério. Fui empurrando a situação com a barriga até quase infartar no meio de uma crise. Foi quando me dei conta de que (por mais que todos à minha volta insistissem em dizer que era puro chilique meu ou uma artística tentativa de chamar a atenção) o que eu sentia era real. Era vivo dentro de mim. E eu não fazia ideia de como fazer parar. 

Fui procurar ajuda profissional. Fiz tudo escondido. Tinha medo de me julgarem louco ou anormal se descobrissem. Não queria que as pessoas olhassem para mim com pena ou com ressalvas. Eu era normal, só tinha dificuldade para lidar com algumas situações na minha vida!

A primeira coisa que a psicóloga me disse foi que o que eu tinha era um mal que acomete boa parte da população mundial no mundo moderno. Ela me contou que muitos estudiosos creem que até o ano de 2020 metade do mundo sofrerá com algum distúrbio desse tipo. Fiquei pensando nisso. Quantas pessoas próximas a mim já sentiram algo parecido com o que eu sinto e eu sequer fui capaz de perceber? Ou pior: quantas vezes será que eu julguei errado essas pessoas?  O peso da culpa naquele momento fez com que eu me sentisse um traste. 

Perguntei a ela o porquê então é tão difícil assumir isso para o mundo? Por que sentimos tanto medo da intolerância das pessoas com relação a esse assunto? Se é algo tão comum, as pessoas deveriam ter mais conhecimento sobre isso, não é? 
Ela me pediu para pensar sozinho sobre isso. Ainda estou tentando encontrar uma resposta. 

Já na primeira sessão ela pediu que eu procurasse um psiquiatra ou neurologista, para fazer uso de medicamento a fim de acelerar o tratamento terapêutico, já que as minhas crises eram muito intensas. Fiquei em pânico. Se eu já não queria que as pessoas soubessem da terapia, imagina sobre tomar tarja preta?! Quase tive uma crise só por causa disso. Mas acabei indo ao médico. 

Ele me perguntou, com muito zelo - devo registrar -, o que eu sentia fisicamente quando tinha uma crise. Eu respondi de imediato: meu estômago dá um nó e eu fico tão enjoado que não consigo nem beber um copo d'água sem querer vomitar. Minhas mãos tremem e ficam geladas, meu coração dispara, as lágrimas escorrem descontroladamente sem que eu nem perceba quando começaram. Eu não consigo dormir e, se consigo tirar um cochilo, tenho sonhos muito agitados que me fazem acordar depressa. Minha cabeça não desliga nunca. Sempre há algo em que pensar, ou para fazer, ou ainda para se preocupar. Isso me deixa cansado. 

Contei ao médico também um pouco daquilo que sinto mental e emocionalmente. Ele não pediu, mas também não se opôs quando comecei a falar, então simplesmente prossegui. Disse a ele que não consigo me concentrar, tenho muita dificuldade em pensar no início, no meio e no fim das coisas porque coloco tantas hipóteses entre o início e o fim que é impossível concluir o pensamento. É como se um pensamento puxasse o outro de maneira infinita e eu não conseguisse resolver nada dentro de mim, entende? Isso me deixa com falta de ar. Eu também sofro por antecipação. As coisas sequer aconteceram ainda e eu já estou em pânico pelo simples fato de que elas ocorrerão. Não faz sentido, eu sei. Mas não consigo evitar. É algo que foge completamente do meu controle. 

Saí do consultório com duas receitas: uma para um medicamento de uso diário e outra para um medicamento a ser usado apenas em casos de emergência (ou seja, no meio de uma crise). Cheguei à farmácia muito constrangido, pensando o que o balconista iria achar quando visse os remédios que eu precisava comprar. Para o meu alívio ele olhou as receitas e sorriu perguntando se havia algo mais que eu desejasse. Eu disse que não e ele me entregou o que pedi. Depois disso voltei para casa. 

Quando cheguei, precisava contar à minha família o que havia acontecido e quais as recomendações que o médico me fez. A primeira coisa que eu ouvi foi: "Não comente nada sobre isso com mais ninguém!". Não, eles não queriam me esconder. O medo deles era exatamente o meu: que as pessoas me julgassem ou se afastassem de mim por ignorância. 

Só que a terapia foi evoluindo. Eu fui vendo, ao conversar com amigos próximos, o tanto de gente que precisa descobrir e aceitar o que tem também, para que a vida finalmente lhe sorria. E aí eu decidi escrever esta carta. Por isso ela é tão importante. 

Eu tenho Transtorno de Ansiedade Generalizada, cuja demora em buscar tratamento adequado originou também uma Depressão. Na minha casa a louça está sempre em dia, eu tenho uma família que amo e que me ama reciprocamente, tenho uma pessoa ao meu lado, tenho um emprego que me faz feliz, sigo convictamente uma religião e, ainda assim, tenho esses problemas. Ainda estou em busca da raiz daquilo que sinto e em processo de descobrimento dos meus gatilhos, mas hoje já não tenho crises todos os dias como há algum tempo atrás. Sigo corretamente a medicação prescrita pelo meu psiquiatra e, quando isso se faz necessário, ingiro os comprimidos na frente de todo mundo. 

Eu não escrevi esta carta com o objetivo de parecer mais forte, melhor ou para chamar a atenção de todo mundo. Eu escrevi porque sei que, assim como eu, muitas pessoas ainda se torturam e têm dificuldades de avançar com o tratamento por terem preconceito com a própria situação. E por saber também que existem muitas outras pessoas que continuam insistindo que essas doenças são invenção de quem não tem mais o que fazer, ou que não tem uma fé, ou que são doenças "de gente rica" ou ainda que quer aparecer para alguém. Especialmente para esse segundo grupo de pessoas eu gostaria de dizer que a ignorância em um mundo onde temos cada vez mais facilidade de obtermos informações, as torna estúpidas. O mundo inteiro está doente de alguma maneira e pessoas um pouco mais sensíveis como eu, acabam se tornando reflexo dessa doença. 

Essa coisa de não ter tempo para nada, de estar sempre correndo, de ser bombardeado com informações e estímulos a todo momento e de não conseguir mais manter relações saudáveis de maneira durável com a maioria das pessoas está acabando com a gente. É por isso que ficamos suscetíveis a esses problemas (que podem aparecer em qualquer idade, etnia, gênero e classe social). 

Enfim, eu escrevi tudo isso para dizer a você que está lendo e que se identifica comigo que não está sozinho. Você não é anormal, você não é esquisito, você não é preguiçoso e nem fresco por sentir o que sente. Não sinta vergonha de buscar ajuda. Você não é maluco por fazer um acompanhamento com psicólogo ou por tomar medicamentos controlados. Você apenas está cuidando da sua saúde e tornando sua vida melhor. Você vai ter dias ótimos em que tudo será incrível, mas também vai ter dias ruins nos quais não sentirá sequer vontade de sair da cama. Você vai ter recaídas, vai sentir vontade de desistir de tudo, mas também  verá progresso no seu tratamento e conseguirá vencer as barreiras que estiverem em seu caminho. 

E, para você que não sofre (Graças a Deus) com nenhum desses problemas, o mais importante a ser feito é acolher. Às vezes a gente só precisa de um abraço ou de um ombro para chorar. Talvez uma palavra de incentivo ou que nos digam: "Ei, eu estou aqui com você". Ao invés de apontar o dedo ou de começar um sermão dizendo quantas pessoas passam por situações piores e não sofrem com nenhum desses problemas, simplesmente ouça o que o outro tem a dizer. O sofrimento dele pode parecer pequeno para você, mas isso não faz a dor que ele sente diminuir. Pode ser fácil para você lidar com aquilo, mas para o outro não é e isso precisa ser respeitado. 

Acabei passando um pouco daquilo que pretendia escrever nesta carta, mas como eu disse lá em cima, estou no calor dos meus sentimentos e precisava vir aqui te dizer tudo isso. Mas peço, gentilmente, que você não retenha esta carta para si. Pense em alguém que também precisa saber do que agora você sabe e entregue a esta pessoa. Talvez não faça diferença para você, mas para o  outro seja a luzinha no fim do túnel que tanto procurava. 


Obrigada por ter ficado comigo até aqui.
Um beijo. Até breve. 

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