Eu sou da Cidade
outubro 17, 2017
Eu sou da cidade. Mas, ultimamente, o peso dela tem me sufocado.
É difícil ter correr o tempo inteiro de um lado para o outro. No final, para onde realmente estamos indo? O que nos move tão rápido? Precisa mesmo ser tão depressa?
24 horas de repente não são mais suficientes. Dormimos mal, acordamos cansados. Precisamos comer comidas saudáveis, mas a rotina nos faz aderir de vez em sempre ao fastfood. Precisamos fazer exercícios, mas muitas vezes isso implica ter que escolher entre dormir até um pouco mais tarde ou descansar no sofá depois de um dia maçante. Precisamos relaxar, mas o transporte público lotado, as preocupações com os problemas em todos os âmbitos da vida, a ansiedade, o trânsito, o cachorro do vizinho que não para de latir nos impedem de fazer isso em plenitude. Precisamos rezar com atenção, mas o que dá para fazer é rezar o terço enquanto se anda na rua prestando atenção para não ser assaltado ou aquela uma hora e meia de missa no domingo. Precisamos passar menos tempo nas mídias sociais e mais tempo com pessoas de verdade, mas encontrar pessoas de verdade demanda tempo demais e essa é uma coisa que não temos sobrando. Precisamos conhecer pessoas, casar e formar famílias, mas as pessoas não estão muito a fim de se conhecerem de verdade hoje em dia porque se contentam com o superficial. Precisamos cuidar de causas sociais, do meio ambiente, da política do país, lutar contra as injustiças, contra o mal, mas tem que ser virtualmente porque não dá tempo de visitar um orfanato ou ir plantar uma árvore no meio do dia corrido. Precisamos cuidar das nossas casas e mantê-las limpas e arrumadas, ao mesmo tempo em que precisamos ter unhas bem cuidadas, pele de pêssego e depilação em dia, mas quase toda semana é preciso escolher qual dessas coisas vai ficar pendente, porque nunca dá tempo de fazer tudo. Precisamos ler mais, mas livros são pesados, então lemos no celular com aquela luz que prejudica os olhos. Precisamos ter as séries, novelas e filmes em dia, então lá se vão as horas que deveriam ser de sono.

Nós corremos o tempo inteiro. Nós temos compromissos o tempo inteiro. Nós não temos tempo de pensar, nem de viver direito. Em meio a tanta correria a vida passa como um borrão e nós nos tornamos cada vez mais duros, secos, sem sentimentos e, tampouco, compaixão. Porque todas essas coisas precisam de tempo para florescer dentro de nós e tempo é algo que a cidade não nos permite ter.
Eu sou da cidade. Mas a cidade me sufoca. Vai chegar o momento em que será preciso dar um basta: ou eu a faço parar, ou ela me engolirá.
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