Dunkirk: Uma batalha de estilos

fevereiro 15, 2018


Dunkirk é um bom filme. Essa é a primeira coisa que você precisa saber antes de começar a ler este texto. Digo isso porque talvez você fique com a impressão inicial de que eu não gostei muito, ou impliquei com coisinhas que, dentro de um contexto, fazem sentido no longa. Mas também é preciso deixar claro que não o considero um filme apto a ganhar o Oscar como a melhor produção de 2017. Ele tem uma proposta interessante, foi muito bem filmado e montado, mas não consegue - na minha opinião - chegar ao mesmo nível de outras produções que concorrem na categoria de Melhor Filme.




















A história se passa durante a Batalha de Dunquerque, ocorrida entre 25 de maio e 04 de junho de 1940 - Segunda Guerra Mundial - na qual as forças francesa, belga e britânica foram encurraladas pelos alemães na cidade portuária de Dunquerque - França -, sendo necessário realizar o resgate de mais de 300 mil soldados para a Inglaterra. A operação, chamada de Dynamo, mobilizou a Grã-Bretanha, a Bélgica, a França, os Países Baixos e a Polônia. Em “Dunkirk”, o diretor Christopher Nolan opta por focar nos dramas particulares dos personagens principais, ao invés de contar a história da batalha por uma visão mais ampla. Talvez este seja justamente um dos pontos mais interessantes e originais do longa, porque em sua maioria esmagadora, os filmes de guerra são sempre repletos de mega explosões, batalhas homéricas, planos gerais e situações-problema ao redor de um personagem específico, deixando secundárias todas as outras questões.

Dunkirk possui três linhas temporais. Até mais ou menos a metade do filme o espectador pode se sentir confuso com isso, porque a não divisão explícita do tempo é proposital. Esse é outro ponto a favor da produção: o fato de apresentar três linhas temporais que possuem, cada uma, um núcleo de personagens principais, enriquece o roteiro e traz um dinamismo singular ao filme. É como acontece no mundo real, onde a nossa vida está entrelaçada à vida de outras pessoas que, por vezes, sequer conhecemos, mas que serão afetadas por nossas ações e escolhas.

Os ângulos escolhidos por Nolan fazem todo sentido no contexto de representação dos dramas individuais dos personagens. O espectador não assiste aos eventos do roteiro “do lado de fora” da cena. Ele está dentro, junto com os personagens, sentindo a adrenalina, a agonia, a desesperança, o medo. Se a cena é de um naufrágio, por exemplo, não vemos os acontecimentos de fora do barco, mas de dentro, com a água entrando por todos os lados e a busca desesperada por uma saída. Nolan claramente selecionou as cenas que deveriam ser vistas em amplitude e aquelas que deveriam ser vivenciadas no íntimo de cada personagem. Há um equilíbrio e uma sequência muito bons entre as duas coisas, o que deixa o filme mais realista.

Apesar de entender a proposta intimista que Nolan apresenta ao focar nas pessoas ao invés de enfatizar o contexto, falta uma introdução ao que está acontecendo. As primeiras telas do filme falam sobre as forças encurraladas, mas não há uma explanação política. Ao contrário do ocorrido na vida real, “Dunkirk” coloca a operação de evacuação dos 300 mil soldados como sendo um esforço unicamente britânico, uma ação caridosa aos franceses e demais aliados ao usar as forças inglesas para resgatar militares que não eram de sua responsabilidade. A sensação que fica é a daquela velha propaganda patriota que exclui os coadjuvantes em detrimento do enaltecimento do país “mais forte”.

O clichê do heroísmo no final do filme não me incomoda, mas me frustra um pouco. Com uma ideia tão boa de usar a visão do micro para o macro e de convergir três linhas temporais em uma única, eu esperava que o desfecho fosse menos óbvio. Não é ruim, mas também não tem nada de inovador, impactante ou genial.

Com relação à trilha, o que mais me marcou foram os momentos de silêncio. Não que a trilha estivesse ruim - ela foi bem produzida, apesar de não trazer nada fora da caixa -, mas o silêncio é muitas vezes esquecido dentro dos filmes. Saber os momentos certos em que não é necessária música alguma é crucial para trazer mais impacto e profundidade à história. Em “Dunkirk” isso é muito bem feito.

Por fim, Christopher Nolan entrega “Dunkirk” com originalidade e sequências de câmera primorosas, mas cai em alguns clichês que, se evitados, poderiam alavancar o filme em relação aos seus concorrentes no Oscar. Vale a pena assistir o longa porque é realmente muito bom, mas não chega a ser forte o suficiente para levar o prêmio principal no dia 04 de março.

     

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