A Forma da Água: o Conto de Fadas genial de Guillermo Del Toro
fevereiro 08, 2018
"A Forma da Água" (The Shape of Water) é o mais recente filme de Guillermo Del Toro e talvez um dos mais poéticos e intensos que o diretor já tenha produzido em sua carreira.
É claro que, quando falamos de Del Toro, pensamos em monstros, criaturas elaboradas e cenários marcantes. Como esquecer do belíssimo "O Labirinto do Fauno" ou de "Hellboy"? O diretor criou sua própria identidade em Hollywood e, agora, lidera a disputa pelo Oscar concorrendo em 13 categorias com "A Forma da Água" - que, diga-se de passagem, merece cada uma das indicações recebidas.
O filme é uma ficção, um conto de fadas adulto e repleto de críticas e problematizações. A proposta do roteiro pode parecer inocente ao camuflar-se em uma história de amor, mas vai muito além disso: Del Toro faz aqui um perfeito equilíbrio entre a sutileza e a voracidade, o belo e o trash, o puro e o profano, o humor e o drama. Uma mistura que funciona, convence, envolve e comove.
"A Forma da Água" se passa na década de 1960, durante a Guerra Fria. Eliza, personagem principal, é uma jovem muda, que trabalha como faxineira em uma instalação militar norte-americana, a qual recebe uma criatura especial que é alvo da cobiça de Russos e Americanos. Alheia ao valor científico do ser e às suas diferenças físicas, Eliza se envolve com a "fera" e estabelece uma relação de confiança com ela, baseada na empatia e no amor.
Sim, "A Forma da Água" possui todos os elementos de um conto de fadas: a mocinha solitária subjugada pela sociedade que tem uma paixão completamente proibida, um vilão muito perverso e ambicioso, uma "fada madrinha" que ajuda protegendo e apoiando a mocinha, o melhor amigo que também atua como consciência, o príncipe amaldiçoado, o narrador... Está tudo ali, mas não da forma tradicional como nas histórias contadas para as crianças: a mocinha não é casta e cercada de pudores, tampouco espera que o amor da sua vida seja um belo e perfeito homem, o vilão é fruto de uma sociedade preconceituosa e de um sistema que usa a opressão como escada para o sucesso, a "fada madrinha" é negra, inicialmente contra a paixão da mocinha e tem problemas no casamento, o melhor amigo é gay, tão solitário quanto a personagem principal e precisa tanto de alguém que possa ser sua voz na consciência quanto ela, o príncipe amaldiçoado na verdade não é amaldiçoado, não está em busca de glória ou redenção e não precisa ser transformado em humano para amar a mocinha completamente. As nuances de cada personagem formam um contexto crítico e muito poético que nos faz pensar por horas a fio depois que o filme termina.
Eliza - a personagem principal -, é interpretada por Sally Hawkins de maneira brilhante: por ser muda em virtude de um acidente que danificou completamente suas cordas vocais na infância, Eliza se comunica por meio da linguagem de sinais, tem expressões faciais marcantes e uma linguagem corporal muito expressiva. Sally Hawkins não deixa a desejar em nenhum desses aspectos em sua atuação e entrega uma personagem completa e apaixonante. Eliza tem um olhar que vai muito além do superficial, da aparência: ela é capaz de olhar dentro das pessoas, como uma igual e sem distinções pautadas em pré-conceitos. Guillermo Del Toro escreveu a personagem pensando-a unica e exclusivamente para ser interpretada por Sally, assim como fez com Zelda (Octavia Spencer), por exemplo.
O vilão - perverso, asqueroso, preconceituoso e que beira a loucura - é interpretado por Michael Shannon, em uma atuação que deixa evidente a diferença que faz um personagem bem escrito e elaborado (Shannon também interpretou o vilão Zod, no filme "Man of Steel"). Strickland é um militar da Segunda Guerra caricato, machista, misógino, ambicioso e sem escrúpulos, que foi moldado sob a pressão da obtenção de resultados perfeitos a qualquer custo. Porém, vive cercado pela ignorância ocasionada pela sua falta de diálogo, pelos seus interesses pessoais e sua presunção. Fantástico!
Giles tem uma relação nos moldes de pai e filha com Eliza que, na realidade, é apenas sua vizinha. Tão solitário quanto a mocinha, Giles sofre ainda com o preconceito por sua homossexualidade, o avanço tecnológico do mundo sobre sua profissão e uma juventude que julga ter sido mal aproveitada. Ele é a consciência de Eliza tanto quanto ela é a sua e é ele o responsável por narrar o "conto de fadas". Brilhante atuação de Richard Jenkins.
A criatura é interpretada por Doug Jones, que já deu vida a outros monstros do diretor mexicano Guillermo Del Toro. Tanto quanto no papel de Eliza, o anfíbio demanda uma linguagem corporal e expressões faciais extremamente marcantes, pois também não fala. A caracterização é perfeita e tudo é tão bem encaixado que quase esquecemos que se trata de uma história de amor interespécies.
Por falar nisso, "A Forma da Água" aborda de maneira sutil, mas muito direta, diversos pontos críticos da sociedade: a exclusão social e o preconceito que sofrem as minorias - em especial as mulheres, os negros e os deficientes -, a aversão ao que é considerado diferente/fora do padrão, a sede de sucesso que cega e destrói um ser humano, a suposta benevolência e supremacia dos norte-americanos - lembremos aqui que o vilão da história é militar estadunidense, enquanto o agente russo infiltrado é o único dentro da disputa entre URSS e EUA pela criatura que realmente se importa com a vida daquele ser -, a crise financeira gerada pela Guerra que é posta em segundo plano por causa da corrida armamentista... Enfim, são muitos os pontos que podem ser discutidos a partir do longa.
A trilha sonora é outro ponto memorável e que merece ser aplaudido de pé: é excelente, marcante, contextual e repleta de referências, tanto à época quanto às inspirações artísticas do próprio diretor. É possível ouvir até Carmen Miranda durante o filme! Simplesmente genial.
Os cenários são muito completos: em momento algum é necessário situar o público da época em que a história se passa ou mesmo das minúcias de cada local. O ambiente é tão natural e complexo que transmite a sensação de que estamos entrando em um museu com reproduções realistas do período da Guerra Fria.
A paleta de cores azulada é a cereja do bolo em "A Forma da Água". Perfeita, bem aplicada, concedendo ao mesmo tempo uma aura clássica, delicada, vintage e que enaltece a história de amor entre Eliza e a Criatura, compondo a narração da história tanto quanto a cenografia e o figurino, por exemplo.
Vale a pena assistir "A Forma da Água". Você vai se encantar, emocionar, divertir, refletir e se deixar levar pelo maravilhoso mundo de monstros de Guillermo Del Toro.


2 comentários
Eu nem sabia exatame e sobre oq era esse filme, e agoraagora me deixou com muita vontade de assistir!
ResponderExcluirConseguiu assistir, Thay?
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